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Uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (31) pela ACT Promoção da Saúde, em colaboração com a Agência Bori, aponta que a inflação dos alimentos no Brasil é um problema de natureza estrutural, que eleva mais o custo de produtos frescos em detrimento dos ultraprocessados.
O levantamento foi conduzido pelo economista Valter Palmieri Junior, que possui doutorado em desenvolvimento econômico pela Unicamp.
De acordo com ele, a escalada dos preços dos alimentos no Brasil não pode ser explicada unicamente por fatores sazonais, que são variações de curto prazo ligadas às estações do ano. O estudo cita como exemplo o aumento do tomate fora da época de safra.
O economista também argumenta que a alta dos alimentos não se deve apenas a causas conjunturais, que envolvem eventos pontuais com duração limitada. A desvalorização cambial abrupta é um desses exemplos.
A pesquisa classifica a inflação alimentar como estrutural, originada por pressões contínuas que demandam alterações na organização econômica para serem solucionadas.
“A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários, é específica, porque está associada às características históricas do modelo de desenvolvimento brasileiro”, afirma o pesquisador em seu estudo.
A alta no custo da alimentação do brasileiro, que subiu 302,6% em quase 20 anos (multiplicando por quatro), enquanto a inflação geral do país acumulou 186,6%, demonstra que o encarecimento dos alimentos superou em 62% o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Para comparação, nos Estados Unidos, o aumento dos preços dos alimentos no mesmo período foi de apenas 1,5% acima da inflação geral.
Palmieri Junior observa que, no Brasil, crises que elevam significativamente os preços dos alimentos resultam em pouca ou nenhuma queda posterior. “Aumentar é fácil, mas depois, em algum momento, cair um pouco, isso é muito difícil. Vi isso em relação a alguns outros países”, comentou a jornalistas durante a apresentação do estudo.
A pesquisa detalha que os grupos alimentícios com maiores aumentos foram tubérculos, raízes e legumes (359,5%), carnes (483,5%) e frutas (516,2%).
Descompasso entre alimentos saudáveis e ultraprocessados
O estudo revela que a redução do poder de compra afeta mais intensamente os alimentos in natura. “Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis”, explica.
Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas diminuiu cerca de 31%, e para hortaliças e verduras, 26,6%. Em contrapartida, o poder de compra para refrigerantes aumentou 23,6%, e para embutidos como presunto (+69%) e mortadela (+87,2%).
O economista explica que o barateamento dos ultraprocessados está ligado à presença de aditivos industriais, que possuem menor variação de preço. Além disso, o uso contínuo do solo para poucos tipos de culturas (monocultura) reduz a resiliência, mas facilita a produção em larga escala.
“Poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, passam a ser transformados em milhares de produtos distintos por meio da adição de aditivos químicos”, detalha.
O pesquisador aponta que o menor impacto da inflação nos ultraprocessados incentiva o consumo desses produtos em detrimento de opções mais saudáveis, alterando os padrões de consumo da população.
Uma pesquisa recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) já havia destacado os fatores que impulsionam o consumo de ultraprocessados por crianças em áreas urbanas.
O papel do modelo exportador
A inserção internacional do Brasil e seu modelo agroexportador são apontados como fatores que contribuem para o aumento persistente dos preços dos alimentos. A prioridade dada à exportação, com recebimento em dólares, muitas vezes se sobrepõe à oferta para o mercado interno.
Enquanto o país exportava 24,2 milhões de toneladas de alimentos na década de 2000 e importava 14,2 milhões, em 2025, as exportações alcançaram 209,4 milhões de toneladas, com importações de 17,7 milhões.
“Esse indicador mostra a quantidade líquida de alimentos produzidos no país cujo destino é o mercado externo, reforçando o papel do Brasil como grande exportador e aumentando a influência do mercado internacional sobre os preços internos”, afirma o estudo.
A prioridade dada a produtos de alta demanda internacional, como soja, milho e cana-de-açúcar, levou a um aumento expressivo da área cultivada para essas culturas, que saltou de 41,93 milhões de hectares em 2006 para 79,30 milhões em 2025. Em contraste, a área destinada a arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu de 10,22 milhões para 6,41 milhões de hectares no mesmo período.
Aumento dos custos de insumos
O custo elevado dos insumos agrícolas, como fertilizantes e defensivos, também contribui para o encarecimento recorrente dos alimentos. Comparando os triênios 2006-2008 e 2022-2024, os aumentos em moeda real foram expressivos: fertilizantes (2.423%), herbicidas e reguladores de crescimento (1.870%), colheitadeiras (1.765%), inseticidas (1.301%), ureia (981%) e peças para máquinas agrícolas (667%).
O pesquisador atribui essa dependência a uma falta de estratégia de desenvolvimento focada em commodities, com insumos e tecnologias controlados por oligopólios de países desenvolvidos, criando um ciclo vicioso que eleva os preços internos.
“Isso afetou o preço para todo mundo, inclusive para aquele pequeno produtor de feijão. Ele nem exporta, mas vai pagar o alto custo do preço dos insumos, e esse custo vai ser repassado para o preço do feijão”, exemplifica.
Concentração no setor
A dependência de insumos estrangeiros está ligada à concentração da cadeia produtiva, outro fator que contribui para a inflação alimentar, segundo Palmieri Junior. Quatro empresas estrangeiras dominam 56% do mercado global de sementes, e quatro companhias controlam 61% do mercado de pesticidas. No setor de máquinas agrícolas, quatro empresas estrangeiras detêm 43% do mercado.
Na indústria alimentícia, cinco marcas de duas empresas representam 74,2% do mercado de margarina no Brasil. Situação semelhante ocorre no mercado de macarrão instantâneo (73,7%), e cinco marcas de três empresas detêm 83% do mercado de chocolates e bombons.
A 'inflação invisível'
O economista alerta que a inflação alimentar é ainda mais severa do que os números indicam, devido à chamada “inflação invisível”. Este fenômeno ocorre quando os produtos mantêm o preço, mas a qualidade é reduzida pela substituição de ingredientes mais caros por outros mais baratos. Exemplos incluem sorvetes com menos leite e mais açúcar, ou chocolates com menos cacau e mais açúcar.
“Se o custo é reduzido piorando a qualidade, e vende com o mesmo preço, é uma inflação que não é computada pelos órgãos de pesquisa. Como você vai captar isso?”, questiona.
Propostas para reverter a tendência
A publicação sugere caminhos para reverter a trajetória inflacionária dos alimentos. “O preço da comida não é apenas uma variável econômica. Expressa escolhas políticas, distributivas e civilizatórias sobre o modelo de sociedade que se pretende construir”, destaca o autor.
Entre as recomendações estão a desconcentração produtiva, o fortalecimento das economias locais, o reequilíbrio entre exportação e abastecimento interno, o fortalecimento de órgãos como a Conab e as Ceasas, a ampliação do acesso à terra e o crédito à produção condicionado ao mercado interno.
Palmieri Junior cita o exemplo de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e nações europeias, que realizaram reformas agrárias para tornar a terra mais acessível e promover a soberania alimentar.
Ele defende que a reforma agrária beneficia o capitalismo, pois um alimento mais barato libera renda para o cidadão consumir outros produtos, impulsionando setores produtivos.
“Se para a população de um país, boa parte da renda tem que ser destinada para alimento, outros setores produtivos são prejudicados”, conclui.