A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) declarou que a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados terá como uma de suas principais missões combater o que ela descreve como um “sistema organizado de opressão, desigualdade, injustiça e ódio” direcionado a diversos grupos historicamente marginalizados na sociedade.

Recém-eleita para a presidência da comissão, a parlamentar concedeu entrevista nesta segunda-feira (23) ao programa Alô Alô Brasil, transmitido pela Rádio Nacional.

Na ocasião, Erika Hilton revelou ter ingressado com uma ação na Justiça Eleitoral contra a deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL-SP). A ação questiona o uso de cotas raciais para a população negra na campanha de Bolsonaro, que se autodeclarou parda, configurando, para Hilton, uma suposta fraude eleitoral.

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A deputada federal também reprovou a prática de blackface por Fabiana Bolsonaro, uma atitude utilizada pela parlamentar estadual para atacar outra colega.

O blackface consiste na pintura do rosto de uma pessoa branca para imitar, de maneira caricata, indivíduos negros.

Para Erika Hilton, essa conduta representa uma prática racista, violenta e de extrema gravidade, que transborda os limites do debate político e da civilidade social.

Prioridades da gestão

Durante a entrevista, a deputada federal detalhou algumas das suas prioridades na liderança da comissão. Entre elas, destaca-se o combate à misoginia impulsionada por discursos de ódio, um fenômeno que, segundo sua análise, foi intensificado nos ambientes digitais. Esse ódio se manifesta contra mulheres, pessoas trans, crianças e outras minorias que, ao longo da história, foram relegadas à marginalidade social.

Erika Hilton salientou que, após diversas conquistas, esses grupos alcançaram novos espaços, fruto de intensa luta e da implementação de políticas públicas. Contudo, essa evolução não foi bem aceita por setores conservadores da sociedade.

“Existe uma guerra de narrativas contra esses grupos, cuja presença nesses espaços ainda gera grande desconforto para essas pessoas [conservadoras]”, afirmou a deputada, defendendo que a democracia, por sua natureza, exige diversidade e, consequentemente, uma maior representação de diferentes segmentos sociais.

Ampliação do conceito de mulher

A deputada reforçou sua defesa pela ampliação do conceito de mulher, argumentando que essa definição não deve se limitar a aspectos meramente biológicos.

Erika Hilton também rebateu as críticas que questionam a capacidade de uma mulher trans presidir de forma eficaz uma comissão dedicada à defesa dos direitos femininos.

“A biologia não foi um fator relevante quando observamos a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo ou a Câmara Municipal, onde apenas homens ocuparam a Comissão de Defesa do Direito das Mulheres”, argumentou ela.

“E ser mulher não se restringe a uma condição biológica. Mulher é também um ser social, cultural, político e material”, complementou.

A deputada mencionou que muitas das parlamentares críticas a ela “estão vinculadas ao PDL da Pedofilia e ao PL do Estupro”, em referência a projetos de lei que visam assegurar atendimento humanizado a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.

Conforme Erika Hilton, diversas dessas parlamentares também se posicionaram contrariamente a propostas que buscavam a igualdade salarial entre homens e mulheres.

“Como podem se sentir no direito de tentar desqualificar minha presidência, quando suas ações políticas sempre foram contrárias à dignidade das mulheres e meninas brasileiras? Isso não se relaciona com o discurso que tentam impor, mas sim com preconceito e ódio”, declarou.

Violência no ambiente digital

Erika Hilton também defendeu a necessidade de o Legislativo brasileiro progredir no combate à onda de violência que se manifesta no ambiente digital e que, frequentemente, se estende para o mundo real, culminando na cultura do estupro, feminicídio e na propagação do ódio contra as mulheres.

“Jovens estão sendo cooptados em plataformas que deveriam ser para jogos, mas que se tornam espaços para organizações de tortura e até de assassinato de animais. É imperativo que avancemos em legislações, estabelecendo responsabilidades e criando mecanismos de controle e segurança para os pais, além de proteção para crianças, adolescentes e mulheres. Do contrário, esse ambiente se tornará uma terra sem lei”, complementou.

A Agência Brasil buscou contato com o gabinete da deputada Fabiana Bolsonaro e permanece à disposição para eventuais manifestações.

FONTE/CRÉDITOS: Pedro Peduzzi - Repórter da Agência Brasil